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A aproximação, pela Internet, de pessoas que ainda não tive a chance de conhecer, me faz lembrar de uma teoria chamada Seis Graus de Separação, que interpreta as conexões humanas, em todo o planeta. A tese é de que, no mundo, são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas, não importando gênero, raça, status ou religião…

Talvez esta rede se amplie de forma espetacular para aqueles que viajam muito, são essencialmente comunicativos, mas ainda assim creio que, mais dia menos dia, todos têm a chance de se tornar mais próximos uns dos outros. Acho que é por isso que aqui estamos nós, tentando novas conexões, graças ao pequeno grande milagre em que a Internet se transformou…

Penso que esse é um lado extremamente positivo da Rede: reduz ainda mais os graus de separação, transformando o globo em uma aldeia, cada dia mais interligada, menor, mostrando que somos todos um, realmente… Bom, isso aqui está virando um tratado, mas jornalista que não escreve não consegue se comunicar a contento… Força do hábito!  Enfim, sejam bem-vindos! Simples, não?…

 Todo o carinho,

Katia (Cornii) Dias

 

De amor e de sonhos


“Da portaria, siga reto. Vire à esquerda e continue reto. Passe direto pela rotatória. Depois da casa vermelha, dobre à direita. Siga em frente! Agora é só alegria… Sorria porque você chegou na casa da Katia! =D”.

(William Souza)


Com a pequena Valentina nos braços, abri a porta do quarto de hóspedes que dava para a frente do casarão, que mais parecia recortado de uma vila toscana, e me posicionei frente a imensidão do gramado bem aparado, com coqueiros imperiais divisando o caminho de pedras irregulares, quebradas a mão, que davam um ar rústico e ao mesmo tempo sofisticado ao terreno como um todo. O que fora um dia exuberante Mata Atlântica cedera lugar a plantações de café, em seguida a pastos, e agora se transformava em espaço para gente da cidade que buscava se distanciar da loucura urbana.
Quando a borboleta pousou próxima à pérgula emoldurada por exóticas trepadeiras que davam para a florestinha próxima à casa, a pequena Valentina se agarrou a mim, assustada pelo tamanho do inseto. Acalmei-a e fui mostrando os detalhes daquela maravilha da natureza. A cada poucos segundos, as asas do bichinho se entreabriam morosamente, evidenciando magníficos desenhos em azul e amarelo, dando a impressão que um par de olhos tingidos de preto, desenhados com esmero para afugentar possíveis predadores, estavam fixos em nós.

– Vê, querida, a borboleta tem olhinhos! E está observando a gente. Ela sabe que adoramos fadas e veio nos encontrar. Sentiu que gostamos da sua companhia…

– Fadas?, perguntou Valentina, sacudindo os cachos de ouro, reluzentes sob os últimos raios de sol no esplêndido fim de tarde que a tudo avermelhava, em tons acobreados, passando pelos alaranjados do céu e pelos reflexos amarelados nas plantas, colorindo de um fogo brando a paisagem ao redor. As longas pestanas da menina piscavam de emoção com a ideia de que se tratava de um momento mágico. E era, para nós duas.

– Sim, fadas!, respondi. Isso mesmo, querida! Borboletas são fadas. Dentro da floresta deixam seu corpinho de quase gente aparecer e mandam e desmandam nos reinos das matas, com casinhas perfeitas montadas no alto das árvores, gangorras balançando nas flores, celas colocadas em pássaros para viajar no espaço até as nuvens, e barcos de folhas navegando nas nascentes de água que correm bem longe das nossas vistas, num eterno barulhinho de chuá, chuá…

Os cachinhos da pequenina se reviraram mais uma vez, agora em direção à mata preservada no condomínio rural que se transformou em minha morada na última década. Nunca fui de gostar da roça, mas ali, com Valentina no colo, ela cheia de curiosidade pelos encantos da natureza, meu coração se encheu de alegria, abençoado pela ingenuidade da infância e pelo espetáculo que se abria ao olhar.

Pressenti a pergunta que viria a seguir, e antes que fosse formulada, peguei um cachinho, enrolei entre os dedos e, olhos nos olhos da doce Valentina, sentenciei:

– Toda vez que você encontrar uma borboleta, preste atenção, muita atenção. Ela quer contar algo a você. E se ficar tempo suficiente a seu lado, não tenha medo, ouça o que ela diz. Talvez ela não diga algo com a voz, mas com o sentimento. Olhe ao redor e tente entender o que ela quer. Às vezes, ela só quer que acreditemos nela.

Os olhinhos brilharam de espanto e o dedinho, sem resistir, tocou aquele encanto. A borboleta rapidamente alçou voo e desapareceu, sob o abrigo escuro da floresta, tingida pelos restos de luz do entardecer. Instantaneamente, as duas mãozinhas espalmaram para cima, como a dizer: fugiu!

– Viu só? Ela foi para casa. Daqui a pouco fica escuro, e é justamente quando a noite vem que as fadas se encontram. De dia, como borboletas, voam pelos ares, entram nas casas, visitam os quintais, tocam os carros; mas, quando a escuridão toma conta dessa nossa roça, se recolhem para brincar em grupo, conversar, fazer planos para o dia seguinte e depois descansar, dormir em suas caminhas.

Era palpável o excitamento de Valentina. Na mata, uma área de reserva que se agigantava ao olhar infantil, um recanto, especificamente, chamava sua atenção: a grande Pedra do Sapo, assim apelidada por se assemelhar ao anfíbio que aparecia em profusão no local.

– Olha, não vamos lá agora, tá bem? É que no caminho da Pedra do Sapo escorrega um pouco e a dindinha não pode se arriscar a cair com você, mas amanhã prometo que iremos lá. O que acha da ideia? Aposto que vamos ver mais borboletas, quer dizer, fadas… Aos montes!

Os olhinhos voltaram a brilhar, os cachos balançaram e a expectativa de uma nova aventura pairou no ar. A Pedra do Sapo era promessa para o dia seguinte. E promessas são dívidas, com dividendos. No caso de contos, um portal para um perfeito patchwork familiar. Fadas de um lado, sapos de outro, e um espaço perfeito para a Casa da Princesa. Mas isso é um outro capítulo dessa mesma história.

É só me dar um conto que eu conto…


(Detalhe do Bistrô Nona Odette. Frase atribuída a Mario Quintana, mas ainda sem autoria confirmada)

Do que passa…


bilhetesOlhem bem, prestem atenção: esta pessoinha que lhes fala tem uma coisa fundamental a dizer e a repetir mil vezes, embora todos já saibamos a respeito: tudo passa! O importante é que estamos vivos para cultivar o que há de melhor em nossos corações. Nenhum de nós (aliás, ninguém) merece estar infeliz, seja por trabalho ou pelas relações em nosso entorno. O que precisamos é ter fé de que tudo vai melhorar e manter um olhar amoroso sobre o outro, mas, principalmente, sobre nós mesmos, a fim de que os obstáculos a essa felicidade sejam vencidos. Sei que esse é um exercício diário, difícil, incômodo, mas o fato é que se faz necessário para o equilíbrio físico, emocional e espiritual, que, na verdade, são intrínsecos.

 

Queridos amigos, agora que entrei em meu e-mail, li todas as mensagens e o que vi foi uma grande teia de fraternidade, carinho e solidariedade, ou seja, um amor imenso transbordando entre nós, mesmo que à distância. E isso é tudo que precisamos para seguir em frente. A paz que sentimos em relação à vitória sobre um problema muitas vezes é a resposta do Alto a algo que nos faz ficar tristes a ponto de adoecermos em certas ocasiões. Talvez nosso corpo nos envie sinais, baixando sua imunidade em função de uma insatisfação em relação a uma situação de risco, seja qual for, desde a saída de um emprego à perda de um amor, ou mesmo a injustiça cometida por outros diante de nossos olhos. Adoecemos primeiro em nossa alma, certo?

 

A todos, em algum momento, não faltam oportunidades. Há que se ter olhos atentos para enxergá-las, e, sobretudo, tranquilidade para descansar a mente, cercar-se de carinho cultivado para estar na única trilha que importa: a da felicidade. Ah, e é preciso encher o coração de gratidão pela dádiva maior ao nosso alcance: a vida que nos foi concedida! Então, é isso! O recado vale para todos nós, principalmente para mim mesma, que tenho muito a agradecer nesse momento em que mantenho o corpo desintoxicado e o coração pronto para se conectar com o Alto; porque, parafraseando Elizabeth Gilbert, rezar, comer pouco e amar muito tem sido minha rotina nos últimos tempos de ausência da vida virtual.

Da inquietude


Tanzhe Temple, China, 2008. Foto de Fernando Moura

Com o Sol firme lá no alto e meu coração pronto para absorvê-lo em sua essência, a de trazer luz e calor, começo o dia numa oração em que rogo por sabedoria para a condução de meu tempo, só levando boas coisas àqueles que estão ao meu redor.  Em minhas intenções matinais, já vieram um rol de ações que me prometi realizar, e entre elas está a de voltar a caminhar (literal e metaforicamente), e, com isso, a de retomar minhas meditações, cuja função, a de serenar a mente, se faz mais que oportuna (não apenas agora, mas sempre)…

Pensei muito em seu e-mail de hoje e o momento em que você fala em crescimento ilimitado me fez refletir sobre um detalhe fundamental: o único lugar em que isso é realmente possível é dentro de nós. João Pessoa, Juiz de Fora, Brasília ou Porto Alegre são importantes na medida de suas ambições mais particulares, aquelas que têm a ver com a razão e os sentimentos, bem dosadas para o encontro da felicidade possível, a do momento.

Talvez por ter lido Santo Agostinho em suas Confissões, e estar sob a influência de seus escritos, me dei conta do tempo como algo sujeito ao relógio dos fatos que nos marcam e apenas isso. Assim, não importa onde estamos, mas sim o que fazemos e para quem. Seu agora parece ser voltado para si mesmo, até para uma descoberta real acerca de seus desejos, que num primeiro instante parecem ser muitos, mas que, certamente, tem a Chave Mestra, aquela que abre todos os caminhos.

Não é fácil escrever à altura de suas palavras, que são o transbordamento de suas inquietações. Quisera eu ter as respostas, o conselho certo, a solução; mas, ao contrário, me vem à cabeça retrucar com uma pergunta que só você, do fundo da sua alma, saberá dizer, e talvez não agora, mas depois do mergulho profundo e corajoso a que se lançou nesses últimos tempos e que se iniciou, quem sabe, lá atrás, menino ainda sem entender as atenções divididas com os irmãos.

Mas quem sou eu, não é mesmo, para tentar entender a complexidade do outro se, como você, continuo a procura de mim mesma ainda sem encontrar? Pode ser que a vida dos que se aventuram em busca do autoconhecimento seja exatamente essa: perguntar e perguntar, mil vezes, até que venha a iluminação. E disso acho que a psicóloga Norma Nasser e seu grupo de meditação estão a par, e como!

Bj no seu inquieto coração,

Katia

Essencial


Hoje veio uma certeza para se juntar ao monte de incômodas interrogações que se alojam na mente sem convite e sem licença: sou mesmo uma alquimista maluca que insiste sempre em desafiar as leis da natureza. Estou entre a bruxa e a fada, acreditando que, em algum ponto, água e óleo serão um mesmo elemento, sem pensar que aí perderiam o que têm de melhor, a sua originalidade. Há casos em que uma mistura forçada como essa acaba criando uma substância dúbia, incerta, estranha, que a nada prestaria longe de sua essência primeira. 

Moon days


*Internet illustration of sun and moon in a yin yang symbol-night versus day opposition

*Internet illustration of sun and moon in a yin yang symbol-night versus day opposition

Ah, as segundas-feiras… essas moon days, mondays, dias de noites com lua mesmo depois do amanhecer… Já pensaram que a cultura germânica, lá nos  primórdios que geraram a língua inglesa, pode ter tido esse belo insight por entender que depois de seus sun days, sundays, a noite iria se impor até pela vaidade de obscurecer o sol do descanso, da alegria, dos cultos e das celebrações do dia anterior?
Afinal, é hoje que, de fato, começamos a nova semana, dando início ao que já estava em andamento… Vida que segue…  Sol que vai, lua que vem num ritmo inalterável, mesmo que os olhos não o alcancem. Temos que lembrar das muitas nuvens caprichosas que querem seu lugar em cena e se alojam, às vezes cinzentas, carregadas de água e energia, outras vezes trazendo desenhos fofos e macios a incitar a imaginação…


*Imagem abrigada em suavedevaneio.blogspot.com referente a obra de Neneca Barbosa

Querido amigo, se bem me lembro, tempos atrás você me perguntou sobre escolas, indagando se faria diferença, na educação de uma criança, um colégio regido por normas religiosas. Na verdade, sempre agi muito intuitivamente, sem me preocupar com o que certo estabelecimento representava historicamente ou em termos de perspectiva, para mim ou para meus queridos filhos e sobrinhos, talvez porque eu tenha vindo de uma formação “patchwork”, pulando entre instituições públicas e particulares ao sabor do que se apresentava como oportunidade  em determinado momento…

Assim, para tecer minha colcha de retalhos educacional, precisei começar de alguma forma e a primeira coisa que me reservaram foi uma vaga, aos 5 anos, na escolinha informal do bairro onde nasci, Linhares, na Zona Leste de Juiz de Fora, onde estava instalada não apenas a Penitenciária Estadual, destinada a presos políticos à época da ditadura militar, mas também a antiga Febem, que acolhia menores infratores. Ou seja, nenhuma família, em sã consciência, deixaria a filha caçula aos cuidados pouco ortodoxos de uma professorinha provinciana, enquanto os outros filhos frequentavam o Instituto Granbery, por onde passaram personalidades como o presidente  da República, Itamar Franco. Fez diferença para mim? Nenhuma!

Pois bem, com base na minha experiência tão plural, acabei entrando aos 6 anos para a Escola Municipal Dilermando Costa Cruz, sendo encaminhada por minha professora de lá, Dona Mariana, para a Escola Normal (hoje Instituto de Educação). Depois, aos 9 anos, fiz um concurso que incluía teste de QI na seleção, permitindo que entrasse para o Colégio de Aplicação João XXIII da Faculdade de Filosofia e Letras da UFJF, que foi, definitivamente, um tempo que mereceu sofridas reflexões no diário de uma pré-adolescente.

Quando saí de lá, tentei um grito de liberdade pessoal e segui para o Machado Sobrinho, excelente instituição, para o Colégio São José (atual Vianna Júnior), até chegar ao Jesuítas, que foi meu paraíso terrestre, e, finalmente, passar no vestibular da UFJF, onde fiquei o tempo suficiente para garantir minha independência.  O curso de Comunicação Social, fiz em tempo recorde, acumulando estágio de cinco horas diárias como jornalista. Sobrevivi, certo? E nunca foram feitas concessões a meu favor. Tive que me virar. E os lugares onde estive não definiram a pessoa humana ou a profissional que me tornei. 

Com isso, acho que a essência é sempre o que prevalece, não importa se você está em Harvard, na Sorbonne, em Oxford ou na UFJF. Somos o que somos e a “culpa” não é da escola, dos pais, do ambiente, da religião. Mesmo a história mais triste pode ser reveladora de um grande ser capaz de transcender o sistema e surpreender. Por pensar assim, não me importei de colocar meus filhos em uma escola então desconhecida, o Cantinho Feliz, que lhe rendeu uma experiência no mínimo generosa. De lá, foram para o Degraus de Ensino, que “engatinhava”,  e seguiram para a Academia de Comércio, que amaram mesmo sendo uma instituição católica, de orientação verbita. Ainda que ateia na ocasião, vê-los em aulas de religião jamais feriu meus princípios. Sabia que eram sensíveis e inteligentes o bastante para separar o joio do trigo. Confiei na semeadura e colhi exatamente o que esperava. 

No final das contas, querido amigo, seja lá qual a colcha que fazemos, ela é só nossa e reflete a habilidade que temos em costurar os retalhos que nos ofertam e fiar o nosso próprio tecido quando a oportunidade aparece. Amo essa manta que fiz, porque ela é bela, fofinha e útil, me aquecendo quando algo ou alguém sopra ventos gelados sobre mim.  De quando em quando, ouço um sussurro aqui, outro ali, sobre como meu cobertor poderia ter sido mais bem preparado. Vejo os desgastes inevitáveis na peça geral e me ponho a cerzir os pontos fracos. Remendos?  Nada mais lindo e autêntico numa colcha de retalhos. Afinal, cada recorte é um pedaço de mim, memórias que retenho no coração.


Poeira ao vento


Foto abrigada em luf3.blogspot.com

Foto abrigada em luf3.blogspot.com

 Perder alguém é sempre uma dor sem medida, ímpar em suas implicações, sangue no vazio que se abre na alma de quem fica. Quando a perda vem de uma escolha, pelo afastamento necessário após um desgaste percebido, a dor chega, sim, mas com argumentos, abrindo um embate cujo principal instrumento é a razão. Nessa luta em particular, o peso é o bem que um distanciamento pode gerar em contraponto ao mal que as constantes farpas vêm a causar. Porém, a ruptura sem escolha, que a morte impõe de forma implacável, traz o peso do inexorável, o que não tem alegação senão a de que somos efêmeros e estamos longe de ser os donos de nossos destinos.

É nessa hora, de perdas inflexíveis como a de minha sobrinha Lara e dos amigos Nelma Fróes e Robson Terra, que se aflora a poética da banda Kansas, a sugerir que tudo o que somos não passa de grãos de areia (poeira) soprados ao vento. “All we are is dust in the wind”. Perder quem amamos é tomar consciência de nossa finitude e se abrir às reflexões que fogem diante da luta nossa de cada dia, por menos extraordinária que seja.

É essa dor que deveria nos fazer melhores, mais gentis, menos orgulhosos, braços abertos para o abraço espontâneo no reconhecimento de que o outro, a seu lado ou não, é um irmão e merece um sorriso sincero, o acolhimento que talvez nos seja necessário ao dobrar a esquina, ali, do outro lado…