Feeds:
Posts
Comments

Archive for January, 2010


Acabei de descobrir, depois de meio século de vida, portanto bem atrasada, que o dia 25 de dezembro é sobre, e quase que exclusivamente, o perdão. E descobri da forma mais difícil, não com o amor brotando espontaneamente no coração, mas com a tristeza insistindo em corroer a alma, ignorante de que acima das nuvens que às vezes baixam sombrias, mesmo numa manhã de Natal, há um eterno céu azul, que nada, nada mesmo, consegue obscurecer.

Mas como enxergar o horizonte entre raios e trovões? O segredo tem que ser a mente aberta e um coração inocente, que a tudo sobrevivem, desde que vestidos com as armas da esperança. Aí a gente se dá conta que a palavra “naif”, que define aquele tipo de arte simplória, embora rica e original, que artistas do povo costumam exercitar, pode ser o segredo de tudo.

A ingenuidade, que os intelectuais combatem como se fosse o diabo, pode salvar uma mente em agonia, com o raciocínio simples e certeiro de que tudo passa, inevitavelmente. Pessoas sábias conhecem esse pensamento, porque entendem a filosofia contida nos meandros do tempo e apreendem o poder dessa atitude para não se deixar derrotar pelas pedras do caminho.

É tudo uma questão de foco, angulação. Mas como preservar o alvo, o perdão, se já estamos corrompidos pela forma ortodoxa e tradicional com que nos vendem a felicidade? Um presente, um sorriso, a salvação… doce ilusão. A angústia não se desfaz com souvenires que não sejam os de uma viagem interior, uma peregrinação no caminho trilhado por nós mesmos, em busca do nosso complexo e intrigante Eu…

Conhecer a si mesmo, de fato, é uma arte que exige coragem para encarar o ser primitivo, egoísta e mimado que habita nossas entranhas. E aí, só um coração puro, ingênuo e despojado de vaidade, pronto para pintar sua história pelas nuances das tintas “naif”, permite a visão redentora de quem somos de verdade. E o Natal com isso? Ora, é como podemos renascer como seres melhores: sabendo quem somos e o que realmente queremos nos tornar.

Não sei você, mas eu conheço meus desvios, meus erros e as necessárias reparações. Ainda não estou pronta para a ação, mas tenho pensado nela enquanto a tristeza insiste em colorir de azul essa alma em crescimento. Acabo de pegar tela e pincéis para desenhar um novo quadro, desta vez como livre criadora, liberta de estilos tradicionais, sem me importar que a obra final tenha valor no mercado de arte oficial.  Afinal, esse quadro, mesmo sendo um autêntico “naif”, não está à venda!

(Fotos Divulgação)

 

Read Full Post »

Amor aos 18


 

_ O que você faria se eu morresse?

_ Não sei…? O que você faria?

Agora estava claro, como o sol que rasga a noite para trazer o amanhecer, que nem de longe os dois sentiam o mesmo um pelo outro. Ela se limitou a fechar os olhos, abraçar as pernas dobradas sobre o meio-fio e o que viu mentalmente foi uma nuvem de desespero se formando ao redor.

Para quem não tinha dúvidas de que a vida não tinha o menor sentido sem ele, o definitivo amor, a resposta que ela ouvira momentos antes, vaga e confusa, tinha o efeito de uma bomba implodindo nas entranhas. Emoções que nunca sentira, impossivelmente dolorosas, tomaram conta de seu peito e, num segundo depois, estava arfando, lutando para conseguir roubar um pouquinho que fosse do ar à sua volta.

_ Ai meu Deus _ pensou, não era possível que fosse ter uma crise de asma assim do nada… Buscou a bolsa largada na calçada ao seu lado e procurou, em pânico, a bombinha salvadora. Por um instante imaginou o mico que seria aspirar naquele bocal cinza perto de seu amado e tentou mudar os planos.

Estava a poucos metros das escadas que a levariam à segurança de seu quarto e aí poderia colocar nos pulmões a dose salvadora de salbutamina combinada com beclometasona, receita infalível para combater aqueles acessos horrorosos, que só tinham cabimento entre quatro paredes.

Teve que pensar rápido. Primeiro tinha que respirar, depois poderia dar vazão às lágrimas que estavam prestes a vazar, numa torrente que fazia jus à força da água que testa furiosa as comportas de uma represa. Em seu interior, o grande muro estrategicamente calculado para segurar qualquer revés estava sendo destruído.

_Afinal, o que eu queria?_ pensou, magoada…_ Um Romeu do terceiro milênio, pronto a dar sua vida pela minha, ignorante das regras da adolescência, em que o primeiro amor era nada além do que… o primeiro amor?_  Não, ele não ia vê-la chorar. Era confessar a derrota óbvia diante da falta de amor que ele deixara escapar numa confissão forçada.

Sua fragilidade não ia entornar diante dos olhos confusos e assustados dele, que agora a perscrutavam para saber a resposta que poria fim à conversa desta longa noite. Aliás, se havia algo para ela se orgulhar era a forma como lidava com os problemas. Era uma guerreira. Apesar de tudo nela transparecer doçura, essa era uma contradição útil, que ia bem além das aparências.

Não podia perder mais tempo. Antes que piscar os olhos fizesse a mágica de criar uma nascente no deserto de seu rosto, tocou os lábios do jovem amante com um beijo rápido e num átimo já subia as escadas, certa de que o esforço iria lhe custar uma dose extra, e por isso mesmo incauta, de Aerocort S, o spray salvador de quem sofre de asma.

Não olhou para trás. Ela sabia que da travessa desprovida de luz daquela pequena vila onde morava, ele continuaria largado no chão, incrédulo com o rumo que a conversa tomara. Pelo que conhecia dele, ia ficar puto, sem entender coisa alguma… Melhor do que vê-la chorar…

Lembrou que cenas de melodrama não combinavam com o jeito duro, quase agressivo do rapaz, talvez sugestão do porte atlético e da voz de trovão, impressionantes para alguém com 19 anos (um a mais do que ela), que se dedicava a estudar ciências exatas e dar aulas de física para sustentar alguns caprichos.

Já no quarto, afundou nos lençóis brancos, de algodão puro para evitar alergias, bordados à mão por ela mesma. O urso Peposo estava a seu lado, complacente, se deixando sufocar. À medida que o coração doía, ela o apertava mais e mais, ciente de que tinha de extravasar a dor. Até que se deu conta que o bichinho não era bem quem queria apertar…

Olhos embaçados, abriu a janela na esperança de achar seu amor. O tempo passara, levara o jovem assombrado pelos destemperos da paixão e ela, mortificada, fixou o olhar para ver se também a noite já ia embora. Mil pensamentos a assaltaram. Não queria perdê-lo. A aurora já aparecia no céu morno, plácido, intocável quando viu o início de um poema no parapeito: “Vou, mas sou como os sinais de trânsito, que ficam verdes de esperança de outras vezes ver você”.

Um novo dia se aproximou. Com ele o sono e a alma lavada pelas lágrimas do primeiro amor. Pensando bem, já não importava se ele morreria por ela. Para que morrer, não é mesmo? A vida é tão boa, e estar com ele fazia tudo ficar melhor, mais colorido, vibrante…

_ Então, que roupa eu ponho mesmo para pegá-lo na aula de alemão?_ se perguntou. Com ela já feliz, animada para a reconciliação, estava encerrado o primeiro capítulo de um amor que atravessaria a vida inteira e mais sete dias. Ou até que uma nova (?) dúvida pairasse sobre eles…

Fotos Fernando Moura (Caminho de Santiago de Compostela – Espanha – 2007)

Read Full Post »


 Hoje me dei conta que se você, ao longo de toda a sua existência, inspirou uma única pessoa que seja, então já valeu a pena sua vinda ao planeta. Nossos atos definem quem somos e o exemplo nosso de cada dia pode ser decisivo para indicar um caminho digno a ser seguido por alguém que esteja perdido, sem direção, assustado com as inevitáveis pedras ao longo da estrada. Essa é uma responsabilidade da qual não podemos fugir. Daí a importância de estar consciente de todos os passos que damos, mesmo que sejam insignificantes aos nossos olhos.

Por mais improvável que lhe pareça, alguém, em algum lugar, pode se espelhar em você para seguir em frente. Um filho que escolhe a fé que você professa, um vizinho que se mostra polido porque você é sempre gentil com ele, uma amiga querida que repassa a outros os ideais que você abraça… Uma pequena e espontânea demonstração de respeito no passado pode ter definido o destino de alguém. E isso aconteceu comigo. Acabo de ver uma bela jovem que escolheu o jornalismo porque, entre outras coisas é claro, ouviu sobre os sonhos que eu entendo como possíveis para todos.

Plantar sonhos e vê-los ser realizados é uma colheita tão abençoada que aproxima você de algo maior. Quando nos vemos no espelho não nos damos conta do que realmente está lá. Prestamos atenção no visual, apuramos os desalinhos da superfície, mas não conseguimos, com raras exceções, ver além. O reflexo que nos chega, porém, traz sempre uma mensagem. O que vemos é o que os outros veem, com o acréscimo da nossa personalidade, da nossa atitude perante a vida. Saber disso traz um comprometimento inevitável com o bem. Uma responsabilidade que a todos abarca. Afinal, reflexos são mais que imagens, são exemplos.

Fotos Fernando Moura (Prainha e Lago dos Espelhos – Ibitipoca – Brasil -2005)

Read Full Post »


  
O inferno são os outros. Essa afirmação, feita num daqueles “papos cabeça” com os mais jovens, me fez pensar que, do auge de meio século de vida, aprendi exatamente o contrário. O inferno somos nós. A busca do paraíso é uma escolha interior, que depende das ações e dos pensamentos que optamos ter. Depender de algo ou alguém para ser feliz é como entregar sua vida a outra pessoa, um compromisso que deveria ser exclusivo de si mesmo. Da mesma forma, sobrecarregar-se com o destino alheio é fazer-se proprietário do que, por justiça, não lhe pertence, a menos que seja essa sua missão aqui na Terra.

O exercício diário das decisões pessoais deveria ser fácil. Mas deixar fluir a responsabilidade por nós mesmos é talvez a tarefa mais difícil do ser humano. Somos experts em dar conselhos, apontar caminhos, criticar opções, mas incapazes de aplicar essa pretensa sabedoria em benefício próprio. Enfim, somos técnicos eficazes do jogo alheio. Não raro, apitamos a jogada como juízes acostumados a ser impiedosos com a causa vizinha, embora condescendentes e negligentes com a nossa.

Diante de uma demanda pessoal, quase sempre nos afastamos de nós mesmos, os únicos com autêntico conhecimento de causa para buscar uma vitória. Deixamos de olhar para dentro, buscando a solução do lado de fora. Ouvir o coração, sentir a inspiração que flui da porção divina de cada um deveria ser um hábito, mas o que vem da alma acaba sendo preterido pelas receitas prontas e improváveis que o outro tem para oferecer. 

É claro que há sabedoria em todo lugar e uma conversa despretensiosa com um amigo querido pode render a luz necessária para clarear uma situação. Mas há que se ter ouvidos para ouvir. E quem não ouve a si mesmo não tem como compreender a qualidade dos sons e das energias que lhe chegam de fora. Estar em paz consigo é o caminho do paraíso. E essa paz se conquista com o reconhecimento da bênção maior, que é a vida ao nosso redor. Tudo o mais são migalhas para alimentar o ego.  

Mas não tiro dos jovens a razão por suas conclusões. Afinal, o inferno são os outros se damos aos outros esse poder. E o inferno somos nós se não assumimos a direção de nosso destino. A felicidade está dentro de nós. Os jardins do Éden são cultivados todos os dias com as escolhas pessoais. Ervas daninhas teimam em nascer, mas é mister arrancá-las para que não sufoquem o crescimento das boas sementes que plantamos, muitas vezes a duras penas. Eu escolho ser feliz. E você, o que vai ser? 

Temple of Heaven, China  

Fotos Fernando Moura (Temple of Heaven – Beijing – China – 2008)

Read Full Post »


Dia desses li que se a gente evolui com os golpes duros da vida, também pode crescer com os toques suaves da alma. Acredito nisso, mas fiquei pensando como é difícil esse aperfeiçoamento e que o preço pago para amadurecer é a imperdoável perda da inocência, aquela coisa cor de rosa que faz a vida ser melhor mesmo sob céus de tempestade.

Aí evoquei Che Guevara e me lembrei daquela frase que estampou as bandeiras da rebeldia em fins do século XX e que só compreendi agora, já entrando na segunda década do novo milênio: “Há que endurecer, sem perder a ternura jamais”. Tarefa hercúlea pra nós, simples mortais, sujeitos à ambição, ao orgulho, ao ciúme, à falta de perdão. Resumindo a ópera, sujeitos ao desamor.

Foi então que percebi o quanto tudo tem mesmo a ver com amor. Nossos erros e acertos são exatamente isso: a falta ou o excesso desse sentimento que, quando presente, nos arrebata, nos irmana, nos transforma em humildes sinceros, cientes da grandeza de um universo que não tem centro, mas simples partículas conectadas à arquitetura geral da Criação.

Olhar pra cima e enxergar o céu que nos protege, o glorioso teto ofertado a todas as criaturas, é reconhecer a dubiedade de nossa existência, ao mesmo tempo pequena e grandiosa. Se nos damos conta da ligação entre todos os seres e coisas ao redor, nos damos conta também do inexorável, do invisível, do trabalho silencioso à nossa volta.

A consciência desta sutil ligação veio em cheio na avalanche de “Avatar” , o filme de James Cameron que escancara a inquebrantável relação entre tudo e entre todos. A visão surreal desse gênio do cinema sugere uma viagem restrita aos loucos e aos santos, mas que agora é de quem quiser. Uma oferta generosa para quem está pronto pra crescer com os toques suaves da alma… É só ter humildade para aproveitar.

(Foto Wow – Katia Dias em “Avatar” – 2010

Read Full Post »


A aproximação, pela Internet, de pessoas que ainda não tive a chance de conhecer, me faz lembrar de uma teoria chamada Seis Graus de Separação, que interpreta as conexões humanas, em todo o planeta. A tese é de que, no mundo, são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas, não importando gênero, raça, status ou religião…

Talvez esta rede se amplie de forma espetacular para aqueles que viajam muito, são essencialmente comunicativos, mas ainda assim creio que, mais dia menos dia, todos têm a chance de se tornar mais próximos uns dos outros. Acho que é por isso que aqui estamos nós, tentando novas conexões, graças ao pequeno grande milagre em que a Internet se transformou…

Penso que esse é um lado extremamente positivo da Rede: reduz ainda mais os graus de separação, transformando o globo em uma aldeia, cada dia mais interligada, menor, mostrando que somos todos um, realmente… Bom, isso aqui está virando um tratado, mas jornalista que não escreve não consegue se comunicar a contento… Força do hábito!  Enfim, sejam bem-vindos! Simples, não?…

 Todo o carinho,

Katia (Cornii) Dias

 

Read Full Post »