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Archive for December, 2010

Joias raras


Vê a neve que cai aqui no blog? Pois é, presente da WordPress para quem, como eu, pouco sabe sobre esses magníficos cristais de gelo, únicos e perfeitos, que, juntinhos, são aquele amontoado branco que vemos em filmes e fotos sobre o inverno bem ao Sul, próximo à Antártida, ou lá ao Norte, esbarrando no Ártico. Já vi geleira na Áustria, fui a estação de esqui na Suécia, dei de comer às renas da Lapônia, mas nunca vi neve caindo, se amontoando no chão, pintando de branco o teto das casas, almofadando os galhos das árvores despidas.

Quem diz que experiência é algo que não se passa, não sabe da emoção que é ver o filho fazendo arte, sem medo de brincar no chão escorregadio e até enfrentando uma caminhada pelas estradas geladas do outro Hemisfério em busca de conhecimento. Uma aventura e tanto, que instiga o coração comovido por essa maravilha que é a neve, os tais cristais gelados que, vistos de um microscópio, são que nem filho, joia rara que não se repete, mesmo que venham muitos, pois cada qual tem um desenho próprio, ímpar em seu jeito de ser.

(Gustavo Dias – Stonehenge – dezembro  2010)

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É Natal e o desejo de doar-se, seja em sorrisos, presentes ou ações chega aos borbotões. Mas vejo as ruas cheias, o tempo quente e chuvoso dos dezembros tropicais, e desanimo. Contemplo a árvore de Natal instalada na sala de estar, que me hipnotiza com seus enfeites de feltro e lembro que cada um deles, feito à mão, conta uma história desde 1986. Ao longo de todos os anos que se sucederam, familiares queridos, amigos preciosos, deixaram nos galhos um souvenir em vermelho, verde e branco, eternizando sua presença.

Atraída pelo pisca-pisca que não pisca, pródigo em pequeninas luzes brancas, fixo o olhar não apenas porque é tudo lindo, mas porque cada detalhe me  leva a um momento passado que se faz presente, alertando para as bênçãos que entraram em meu lar no decorrer desse tempo. Vejo Babi e Gustavo entusiasmados, me ajudando a montar a árvore, ainda filhotinhos encantados pela ideia de encontrar Papai Noel. Vejo meus sobrinhos procurando seus presentes ao pé da árvore. Ouço os gritinhos. Lelé, Lili, Leo, Leandro e Larinha correndo, brincando em volta, enfeitiçados pela mágica, incomodando os vizinhos com essa deliciosa excitação.

Nesta data, as meias que abraçam as maçanetas das portas têm uma razão de ser em minha casa. Estão ali para acolher recadinhos, presentes, em um gesto simbólico, certamente importado de alguma cultura européia que tomamos para nós. É quando me lembro que algumas delas vieram da Holanda, enviadas pela Cláudia Nina, uma repórter querida com quem convivi, mas que, por algum motivo, há muito desapareceu do convívio regular. Ainda assim, é ela que me vem quando olho a lã desenhada de renas, duendes e repleta da neve dos dezembros no Hemisfério Norte.

A mesma neve que meu filho Gustavo, hoje, contempla em um subúrbio londrino. Preocupo-me com seu Natal solitário e a casa desprovida de enfeites para o dia 25. Bobagem. Onde estão os amigos estão o amor, a superação, a alegria. Sei que ao lado de Lukinha, Serjão, Marreta, Floquinho e Homeless (apelido para um novo menino que se agregou ao grupo) há tudo isso e muito mais. As lágrimas chegam e sei que é hora de deixar a neve cair em minha própria árvore. É meu coração se acalmando e finalmente aceitando o primeiro Natal com Gus à distância. Estou pronta para desejar Feliz Natal ao mundo todo. Ao mundo, com amor.

Foto Wow – Gustavo Dias – 2010

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Quando entrei no Campus da UFJF, quatro décadas atrás, tive a impressão de que era o espaço perfeito para a transcendência. E a verdade desse primeiro olhar se confirmou hoje, quando senti irromper os sons doces e agudos de uma flauta no prédio da Reitoria. Ouvidos atentos, coração pulsando pela melodia, vi uma fada dançar pelos corredores. Desta vez, não era o efeito da minha personalidade sempre tendendo a espanar o céu. A menina era de carne e osso e buscava ouvintes para o concerto que o professor Bruno Faria e os alunos de flauta do Instituto de Artes e Desenho da Universidade fariam em poucos segundos. Seu nome, tão delicado como o momento, era Nina.

O saguão do prédio desenhado pelo saudoso engenheiro Arthur Arcuri se encheu de luz com a leveza que se harmonizou com os propósitos que se costuma atribuir a uma Universidade. Transcendência é o que vi ali. Gente de todas as idades, estudantes, professores, funcionários, e até o reitor Henrique Duque, parando, ouvindo, se emocionando… Música da melhor qualidade. Um presente no dia ordinário. Um privilégio na vida que segue. Uma bênção de final de ano, afinada com o espírito de doação do Natal. Não houve como conter as lágrimas, em agradecimento pela pausa na rotina in blue destes tempos velozes, em que nunca há tempo para coisa alguma.

O concerto desta tarde de dezembro ficou nos arquivos da minha alma. Ao lado de meu novo amigo Ricardo Torres, que parece ter sempre estado ao meu lado, ficaram os registros de músicos talentosos em solos para composições de Camargo Guarnieri (Improviso nº 3), Edmundo Villani Côrtes (Seresta), Claude Debussy (Syrinx). Em grupo e quarteto, as interpretações abarcaram preciosidades da MPB como Carinhoso de Pixinguinha e Asa Branca de Luiz Gonzaga, ambos referências de meu pai querido, que evoco numa homenagem à fantasia das fadas e à realidade de uma educação preciosa, sua grande herança. Transcendência, meus amigos. É disso que este post trata…

Foto Wow – Babi Dias – 2011

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(Foto Fernando Silva -Sala dos Espelhos – Swarowski – Áustria -2009)

Dias de fada. Dias de bruxa. O fato é que espelhos não são tão imparciais como deveriam.  Em certos momentos, parecem vivos, cheios de personalidade, revelando o oculto, se dispondo a mostrar o que vai na alma de quem se posta diante deles.  E quem resiste a eles, mesmo sabendo que aquilo que nos mostram nem sempre é o que esperamos? Daí os dias de bruxa e os de fada…

A literatura já deu a eles o cunho de portais para dimensões e mundos alternativos, mas o que importa, de verdade, é que aqueles de nós que têm olhos para ver enxergam além da superfície exibida pelo aço sob o vidro. Ou seria prata? Pouco importa, há muito mais que três camadas nesses artefatos reveladores, quase mágicos, que nos encantam, nos atiçam, nos forçam a refletir sobre o reflexo que proporcionam.

Nessa estranha química entre o espelho e o observador há verdades que nos capturam. Há certos dias em que tudo o que vemos é a superfície do espelho. Mas há dias… Ah, malfadados dias… a luz incide impiedosa sobre o metal e nos transforma. A pequena ruga salta aos olhos, a cicatriz escondida irrompe atrevida, e as verdades, antes encobertas pela boa vontade, aparecem absolutas, aterradoras.

De quem é a culpa? É a alma distorcendo o reflexo ou é o reflexo distorcendo a alma? São ambos, ao mesmo tempo, em uma briga que não termina quando a luz se apaga e o espelho perde sua função. O segredo talvez seja não se deixar prender por uma imagem. Nada é imutável e prescinde de transformação. Fadas e bruxas são uma só se considerarmos que bem e mal convivem desde sempre, sobreviventes que são do ato da criação.

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