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Archive for January, 2012


Detalhe do cartaz de divulgação do filme Perfume

Todos os sentidos são fundamentais, eu sei, e não abdicaria de nenhum deles, mas o olfato anda me intrigando mais que qualquer outro, talvez por sua capacidade de retomar memórias que há muito estavam engavetadas.  Não foi à toa que um dos livros mais fantásticos que li tenha sido Perfume, do alemão Patrick Süskind, transformado em filme por  seu compatriota Tom Tykwer. A história gira em torno de um jovem sem odor corporal, que mata para conseguir um perfume que seja a quintessência da beleza e da juventude.

Saindo das páginas do livro e entrando na vida real, Pedrinho nasceu e com ele se espalha o cheiro mais gostoso deste mundo: o de bebê fresquinho, saído do banho, molengando no colo com aquele olharzinho inocente, de quem inspira cuidados e em troca sorri, primeiro com o canto da boca, depois com o brilho dos olhos e, então, finalmente, exalando o sopro divino de um risinho sonoro, miniatura de gargalhada… E tudo isso vem com seu cheirinho de nenem.

Há cinco anos, Lucas trazia esse mesmo cheirinho por onde passava. Hoje, menino sabido, da era dos Índigos ou dos Cristais, não sei bem, ainda rescende a uma deliciosa colônia infantil, que a gente sente quando o abraça à força, cafungando atrás de sua orelha antes que saia correndo, ávido por se livrar de beijos e abraços forçados. Mas seu cheiro também cresceu, ficou diferente, tem mistura de arte, da deliciosa intenção de estar sempre disposto a “aprontar”.

 A primeira vez que meu marido usou seu perfume da Paco Rabanne, pensei: se não fosse o homem que escolhi para casar “trocentos” anos atrás, seria a hora de colocá-lo para sempre em minha vida. Tá, eu sei, nada é para sempre… Mas os cheiros especiais, vamos combinar, estes são, e como! Hoje, em que o Atlântico nos separa momentaneamente, a fronha ao lado da minha denuncia sua presença… Mesmo nova e bem lavada, há algo no travesseiro que é seu, não sai de lá, é sua marca, sua essência.

 Se penso em minha mãe ou minha irmã, sinto o cheiro que vem do fogão, da comida gostosa, dos pratos do dia a dia, das receitas de Natal, e me vejo com lágrimas de amor e saudade, embora ambas morem logo ali, virando a esquina e seguindo em frente. Ainda sinto o perfume de orquídeas quando me vejo criança, em Linhares, quando meu avô me deixava escolher, entre suas preferidas, a flor perfeita para enfeitar meu bolo branco de aniversário. Uma estufa repleta de orquídeas e dendróbios tem um cheiro tão peculiar que chega a ser desconcertante, e ainda consigo senti-lo meio século depois.

 Essas são vivências que definem parte de quem me tornei. Os cheiros estão em tudo. Na chuva que molha o mato, na poeira que sobe da terra quando a moto abre seu caminho, no cachorro que deita confiante sob os pés do dono, nos filhos pequenos aninhados sob as asas da mãe, e depois, crescidos, com os cabelos ao vento, trazendo o cheiro da vida.

 Por fim, a  importância do olfato poderia se resumir na aventura que a Disney promove por meio de uma câmara escura, cujos sons sugerem com perfeição a presença da Floresta Amazônica. A chuva descendo, o vento nas folhas agitadas, o ruído de pequenos animais, o silêncio e, de repente, um grande felino rugindo. Você se sente no Amazonas. Mas, de fato, a Floresta da Chuva só vai ser conhecida por quem tiver a oportunidade de se embrenhar na mata e sentir o cheiro de todos esses sons. Não tem outro jeito! E aí a gente compreende o que levou Patrick Süskind a escrever seu Perfume.

Floresta Amazônica à altura do Rio Negro. Foto Fernando Silva 
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O preço de uma vida


 

Qual é o preço de uma vida? Banalizados pelas peças publicitárias que incentivam o consumismo desenfreado da sociedade atual, repetiríamos o jargão: “Não tem preço”. Mas tem: O preço é a consciência, e perdê-la ou sustentá-la de forma equivocada é dar um passo atrás em nossa humanidade, especialmente se não a questionamos. O jornalista Wilson Cid, em um depoimento para o projeto Diálogos Abertos, da UFJF, analisou que as grandes contribuições para o mundo são dadas por pessoas que optam por ir além do que se espera delas. São indivíduos que não se conformam com regras estúpidas, oferecem mais do que têm e, por isso mesmo, transformam o mundo à sua volta. São aqueles que pensam no outro como em si mesmos, um princípio cristão ainda desprezado e mal compreendido.

     Todos sabemos que as relações humanas, hoje, carecem de aquecimento, do calor que vem das boas intenções e que é capaz de vencer mesmo os climas mais severos, mas poucos somos os que se preocupam em lutar por mudanças. Em Juiz de Fora, cidade conhecida por oscilações de temperatura que incluem a sensação térmica de zero a 32 graus Celsius em um mesmo dia, o sentimento de solidariedade e de compaixão parece estar congelado no termômetro do poder público, provavelmente soterrado pelo frio peso da burocracia. Nestes dias de janeiro, de verão atípico, o rigor do inverno está estranhamente de volta à cidade, tanto nas chuvas que fazem os costumeiros estragos, atingindo principalmente os que menos têm, quanto em alguns corações, haja vista a situação dos cidadãos de rua, que muitas vezes contam apenas com a boa vontade de seus pares para esquentar a vida que levam, independente se esta é ou não uma opção pessoal.

       Para as pessoas endurecidas, que vão apenas até onde as normas determinam, gostaria de dizer que a capacidade que temos de nos colocar no lugar daquele que sofre define quem nós somos. É assim que se cunham os grandes homens, mesmo que anônimos e sem pagamento. É preciso se compadecer de quem se esconde sob o manto da miséria. É importante enxergar os desvalidos, mesmo que os olhos já pareçam acostumados aos silenciosos, embora insistentes, pedidos de ajuda à nossa porta. Não podemos perder nossa capacidade de indignação, mesmo que o custo sejam noites mal dormidas e uma triste sensação de incapacidade para mudar o quadro geral. Longas jornadas começam com um único e pequeno passo à frente. Grandes transformações também. Sempre. Então, mãos à obra para ajudar os que foram de alguma forma vitimados pelas chuvas de verão.

*Na foto ao alto detalhe da obra de Michelangelo

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Foto abrigada em página de Marcelo Miranda

Finalmente o Sol voltou. Na voz da criança lá de dentro, acenderam a luz outra vez. Nada contra as chuvas, afinal as plantinhas agradecem, mas para nós, que precisamos trançar pra cá e pra lá, feito lançadeiras, tudo fica mais difícil. Sem contar que excessos trazem preocupações, prejuízos para quem menos tem, tristezas desnecessárias num momento em que a esperança acaba de renovar o coração. Então… obrigada Sol, obrigada céu! Obrigada, que a casa é sua. Entre, se instale e faça valer a que veio.  Afinal, meu primeiro dia de trabalho em 2012 merecia esse tipo de boas vindas! Temperatura amena no Campus, sorrisos que não via há semanas, cafezinho delícia na copa da Margarida e do Seu João.

Ver de novo o povo caminhando ao redor do lago da UFJF atiçou meu desejo de ir à luta, voltar a caminhar. Uma volta, duas. Mais? Não, por enquanto assim tá bom. Quanto à nuvem atrevida que teima em se estabelecer, melhor ignorar. Bons ventos a levem! É verão, pessoal, e as cores têm que voltar a se mostrar em tintas espalhadas no florido das roupas, no estampado dos jardins. A luz lá no alto brinca com meus pensamentos. Minha palheta está surtida e eu estou surtando para usar e abusar dos vermelhos, amarelos, azuis, verdes, rosas e lilazes. Chega de tons amenos. Que me desculpe a elegância cool que agora impera do outro lado do mundo. É bom que fique longe mesmo, porque aqui é tempo de luz acesa!

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O que é ser feliz?


 O riso farto da criança oculta, o abraço do amigo sincero, o elogio do desconhecido que enxerga além, o olhar de ternura do velho que passa, tudo me faz feliz. E o que dizer do ato de ninar um bebê querido ou contar histórias para um menino sabido, fazer cócegas nos sobrinhos amados, presentear o outro com um olhar de adivinho? Dar a todos o melhor de mim, eis o que me faz feliz.

Brincar com as gotas que escorrem na vidraça, saltar as riscas da calçada sem se preocupar em cair, arriscar as possibilidades que o dia traz, sonhar com o amanhã me faz mais que feliz. Fazer o primeiro café do dia, escrever para soltar o peito, sentir o sol que vaza das árvores, caminhar descalça na areia da praia, pular pequenas ondas também me faz feliz…

Dançar com um parceiro improvável, se sentir necessária na jornada, andar com quem lhe cede o cajado são formas que a vida toma para me fazer feliz. Aquietar o coração com uma lembrança bonita, sentir o cheiro de bolo assando, aplaudir a façanha alheia, ouvir a música da vida, isso é ser feliz. Mas tem mais, muito mais, que me faz feliz. Saber que você se importa, e chegou até aqui, ah…. isso me faz mais que feliz.

Afinal, o que é ser feliz? É se contentar com os pequenos grandes milagres que a vida escolhe e acolhe, o presente de estar no presente. Mas isso são só detalhes. Pois é, por favor não os roube de mim, porque eu sou assim: pedacinhos de alegria, retalhos de vida tecidos em patchwork que precisam de muita sensibilidade para serem bem combinados. Colcha que a muitos aquece, costurada com panos e linhas de ternura para fazer você feliz.  

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Deixa arder!


Serra do Ibitipoca -2011- Foto Fernando Silva

Segundo dia do ano e aqui estou com um presente inusitado para quem se acostumou a trabalhar domingos e feriados, tendo pesadelos sobre o fechamento da próxima página, o famoso dead line. Ainda sou a mesma jornalista, mas mudei de emprego e  recebi, de quebra, os benefícios de folgar nos finais de semana, emendar as datas festivas, descansar em recessos oficiais. O calendário ganhou os tons de um arco íris especial, que combina com cinema, boa leitura, shows, teatro e pequenas viagens. É… porque nas férias, há sempre uma aventura maior, tipo pé na estrada, no melhor estilo off road, explorando caminhos inusitados, como o de Ponta de Corumbau, Bahia, no último inverno.

 Mas hoje, quando todos voltam às atividades, tenho mais um dia de calmaria, e descanso agradecida, já com um livro novo nas mãos: Room. Finalmente vou conhecer Emma Donoghue, que andei espreitando aqui e ali, depois de vê-la finalista do Man Booker Prize. Acho que tenho uma obra de arte para desvendar e um mundo inteiro para conhecer sob o olhar de uma criança. Admiro quem se transporta para a mente alheia e a perscruta com inteligência e criatividade. Espero um dia chegar lá… Mas, por enquanto, salto de A Ilha sob o Mar, de minha adorada Isabel Allende, para o Quarto desta jovem alemã que encanta a Europa, mas ainda uma desconhecida para mim.

 Então… licencinha! O sofá, hoje, é todo meu. Só o divido com a manta de oncinha, o chocolate quente e a visão cinzenta de minha cidade ainda sob a chuva, que se abre majestosa diante da parede de vidro de minha sala de estar. Valeu!  Só desgrudo daqui por uma boa causa: pode ser o filme novo de Steven Spielberg, Cavalo de Guerra, ou O Último Dançarino de Mao, do australiano Bruce Beresford, aquele de Conduzindo Miss Daisy, que foi lindo. Se bobear, dou uma escapada, logo mais, para rir com as bobagens de Roubo nas Alturas, não sei de quem.  Melhor ainda, vou decidindo no ócio da tarde que se instala… Só falta acender a lareira… Belo começo de ano!

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Ai que saudade de ti


Primeiro dia do ano e nesta Juiz de Fora de céu cinzento, as nuvens insistem em derramar mais água sobre nós. Melhor olhar para cima e entender a chuva como bênção que chega para lavar a cidade e, de leva, os corações que, mesmo de longe, teimam em bater por ela. Nesse cenário gris só o que me vem à cabeça são os poucos dias do final de 2011 que passei no Rio de Janeiro e o que deles ficou: a voz de quem se valeu da poesia de Vital Brasil para abençoar uma nova união, repetindo os versos do violeiro, algo mais ou menos assim:

“Não admires se um dia um beija-flor invadir a porta da tua casa, te der um beijo e partir. Fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo, faz tempo que não te vejo, ai que saudade de ti. Se um dia lembrar, escreva uma carta pra mim, bota logo no correio, com frases dizendo assim: faz tempo que não te vejo, quero matar meu desejo, te mando um monte de beijo, ai que saudade de ti”… É esta delicadeza que me encanta e que desejo poder levar a quem, como eu, se esbalda nas águas da sensibilidade…

*a foto acima está abrigada em http://sucesso.powerminas.com/historias-para-motivar-o-beija-flor-idealista/

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