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Archive for the ‘Razão e sensibilidade’ Category


Aconchego em vermelho
Foto Lia Costa Carvalho – 2006/Internet

Quando abri os olhos e senti o peito apertado, doído sem razão, hesitei em abandonar o aconchego das cobertas. Maio, o mês das indefinições tropicais neste mar de montanhas em que vivo, trouxe cerração pesada, mas deixou entrever o sol que viria para agradecer o vento soprando um céu destinado a se abrir in blue, no exato tom de minha alma nesta manhã de segunda-feira.

 Café à mesa mineira, de frutas, queijos, geleia, torradas e bolo montanhês no melhor estilo Vegan, a obediente louça de beirinha dourada deixou o armário às seis da manhã. Tudo pronto pra o desjejum no ninho, foi a vez de revirar os presentes do Dia das Mães e descobrir, feliz, o look perfeito para iniciar bem a semana: carmim. Dos pés à cabeça? Claro, como pressupunha o dia…

O portão eletrônico do edifício emperrou, atrasou minha subida ao Campus, e, em frente à Reitoria da UFJF, ao parar para pedestres atravessando a faixa, senti meu carro ser batido por trás. Olhando em volta, parecia que os problemas iriam se avolumar. Mais um motivo para manter a calma. Inevitáveis tempestades emocionais se formando, busquei o irrefutável argumento interior de que tudo acontece por alguma razão.

 O desaponto da batida não foi meu. Era um bofetão na face da boa educação e da civilidade que costumam pontuar o caráter de cidadãos bem intencionados. Ainda assim, o fato de que ninguém se machucara, me deu tranquilidade para abdicar do conserto que o motorista de trás certamente me devia. Depois de uma boa conversa, ele, exatamente como eu, reconhecia os sinais de que viver requer atenção, sempre.

 Poderia ter permanecido sob as cobertas quentinhas esta manhã. Mas saí para o mundo, entendi os sinais e me recolhi nas orações de agradecimento. Reconheci que, de alguma forma, fui um instrumento de alerta para todos os que aceleram seus carros e ignoram o coração, como se o pedestre não pudesse ser o tesouro de alguém ou se o outro carro, por ser menos veloz ou ostensivo, não merecesse sequer as regras da lei.

Felizmente, meu dia in blue se tornou carmim apenas no que tange aos elementos superficiais e a delicadas referências ao necessário amor pelo outro. O vermelho sangue se manteve no lugar certo, obedecendo ao ritmo apropriado do coração sobressaltado. A ordem das coisas não se alterou e percebi que, mesmo quando se vislumbra o caos, sinais de que a ordem se restabelece a seu próprio tempo, sempre.

 No final das contas, o que me vem à mente é que a vida me deu a chance de pintar um quadro, primeiro me oferecendo o azuloutrora raro pigmento para a composição de grandes mestres como Da Vinci, e caprichou ao me indicar o carmim, tão raro quanto, pois que vem da cochonilha, inseto que muito não as caras à indústria. Que o diga o velho rouge

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Ordinary people


* Em resposta ao post  “Sem tribo?”

(Foto abrigada no site br.viarural.com)

Ao “desconhecido” que habita minhas manhãs no Campus, e as ilumina com uma luzinha aqui e um clarão acolá, segue aqui uma certeza estranha para aqueles que não se encaixam sequer na tribo dos sem tribo:

somos todos tão iguais em nossas carências e tão únicos em nossas diferenças, que só tem um jeito de comparar: a tribo dos humanos é como a tribo das árvores. De longe, a floresta, com todos os seus exemplares, é uma massa homogênea, que, de pertinho (mas só sob as lentes de um interesse sincero), revela os tons que a cobrem, as formas que a definem, a utilidade que oferece.

A beleza está nos detalhes, que nunca se repetem, nem mesmo na tribo das pessoas/árvores. Nem naquela “clonadas” para formar as florestas de “eucaliptos”, que parecem querer ganhar o mundo, porque estão em todo lugar e parecem ser solução para tudo… São tão “iguais” que nos confundem, nos deixam perdidos, sem direção. De pertinho, porém, são como nós: em uma cresceu um galho a mais, uma folha a menos, serviu de casa para determinado inseto, vergou sob a força de um vento atravessado, se enrolou no exemplar mais próximo, mostrou as raízes, verdejou mais cedo que o esperado, se regalou com um fiapo de luz inesperado.

Consegui me fazer entender? E, de repente, na pessoa/árvore nasce uma flor, aquela que encanta, trazida sabe-se lá pelo bico de qual beija-flor… E assim caminha a humanidade: igual, mas peculiar. Diferente, mas a mesma… E quando a gente acha um diferente que é igual a gente… Ah, que bom, é gente, não é? Gente como a gente…

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Quando entrei no Campus da UFJF, quatro décadas atrás, tive a impressão de que era o espaço perfeito para a transcendência. E a verdade desse primeiro olhar se confirmou hoje, quando senti irromper os sons doces e agudos de uma flauta no prédio da Reitoria. Ouvidos atentos, coração pulsando pela melodia, vi uma fada dançar pelos corredores. Desta vez, não era o efeito da minha personalidade sempre tendendo a espanar o céu. A menina era de carne e osso e buscava ouvintes para o concerto que o professor Bruno Faria e os alunos de flauta do Instituto de Artes e Desenho da Universidade fariam em poucos segundos. Seu nome, tão delicado como o momento, era Nina.

O saguão do prédio desenhado pelo saudoso engenheiro Arthur Arcuri se encheu de luz com a leveza que se harmonizou com os propósitos que se costuma atribuir a uma Universidade. Transcendência é o que vi ali. Gente de todas as idades, estudantes, professores, funcionários, e até o reitor Henrique Duque, parando, ouvindo, se emocionando… Música da melhor qualidade. Um presente no dia ordinário. Um privilégio na vida que segue. Uma bênção de final de ano, afinada com o espírito de doação do Natal. Não houve como conter as lágrimas, em agradecimento pela pausa na rotina in blue destes tempos velozes, em que nunca há tempo para coisa alguma.

O concerto desta tarde de dezembro ficou nos arquivos da minha alma. Ao lado de meu novo amigo Ricardo Torres, que parece ter sempre estado ao meu lado, ficaram os registros de músicos talentosos em solos para composições de Camargo Guarnieri (Improviso nº 3), Edmundo Villani Côrtes (Seresta), Claude Debussy (Syrinx). Em grupo e quarteto, as interpretações abarcaram preciosidades da MPB como Carinhoso de Pixinguinha e Asa Branca de Luiz Gonzaga, ambos referências de meu pai querido, que evoco numa homenagem à fantasia das fadas e à realidade de uma educação preciosa, sua grande herança. Transcendência, meus amigos. É disso que este post trata…

Foto Wow – Babi Dias – 2011

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(Foto Fernando Silva -Sala dos Espelhos – Swarowski – Áustria -2009)

Dias de fada. Dias de bruxa. O fato é que espelhos não são tão imparciais como deveriam.  Em certos momentos, parecem vivos, cheios de personalidade, revelando o oculto, se dispondo a mostrar o que vai na alma de quem se posta diante deles.  E quem resiste a eles, mesmo sabendo que aquilo que nos mostram nem sempre é o que esperamos? Daí os dias de bruxa e os de fada…

A literatura já deu a eles o cunho de portais para dimensões e mundos alternativos, mas o que importa, de verdade, é que aqueles de nós que têm olhos para ver enxergam além da superfície exibida pelo aço sob o vidro. Ou seria prata? Pouco importa, há muito mais que três camadas nesses artefatos reveladores, quase mágicos, que nos encantam, nos atiçam, nos forçam a refletir sobre o reflexo que proporcionam.

Nessa estranha química entre o espelho e o observador há verdades que nos capturam. Há certos dias em que tudo o que vemos é a superfície do espelho. Mas há dias… Ah, malfadados dias… a luz incide impiedosa sobre o metal e nos transforma. A pequena ruga salta aos olhos, a cicatriz escondida irrompe atrevida, e as verdades, antes encobertas pela boa vontade, aparecem absolutas, aterradoras.

De quem é a culpa? É a alma distorcendo o reflexo ou é o reflexo distorcendo a alma? São ambos, ao mesmo tempo, em uma briga que não termina quando a luz se apaga e o espelho perde sua função. O segredo talvez seja não se deixar prender por uma imagem. Nada é imutável e prescinde de transformação. Fadas e bruxas são uma só se considerarmos que bem e mal convivem desde sempre, sobreviventes que são do ato da criação.

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Sem palavras


(Foto Babi Dias – Itaúnas – ES/BA – Brasil – 2010)

Poucas vezes alguém me tira o fôlego, me deixa sem palavras. Mas saber que ainda há quem o faça devolve a esperança, esse regador verdinho que molha as terras férteis do coração. E as da criação, do novo, da vida. Quando isso acontece, acende uma luzinha especial no peito, bem no centro, daquelas que se estendem por todo o ser e ainda mais além.

Isso me aconteceu ao conhecer um menino, que, com suas ideias e otimismo, anda clareando o dia de muita gente, mesmo de quem não o conhece. Ainda. É, porque vai conhecer… Mais dia menos dia, ele vai estourar por aí, ganhar nome, espaço. Posso ver o moço brilhando desde já. Vi acontecer muitas vezes…

E aí, fica inevitável pensar que gente iluminada, que nem esse menino, espalha a semente da inspiração. Seria ele um plantador? Ou seria o sol que se intercala com a escuridão para fazer a gente pensar?  Seja o que for, quando se tem o coração adubado pelo amor a planta germina, cresce, dá fruto…

Pode até parecer exagero, mas, de fato, tem gente assim mesmo, iluminando onde pisa… Bom, não? Pois é… Muito mais que bom. Divino! E aí tem que agradecer e repassar, deixando as folhinhas que caem marcando o caminho para outras pessoas. Pegadas. É quando a gente agradece por voltar a acreditar. Isso é aprendizagem. Viver sem ela é morrer, não é?

Viva a você menino, que honra o conceito que alimento sobre o que seja, de fato, luz!

(Para entender melhor experimente  www.omauromorais.blogspot.com)

(Foto Gustavo Dias – Londres- Inglaterra – 2010)

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(Foto Fernando Moura – Áustria 2009)

Escrever pode ser um eficiente exorcismo de nossos demônios interiores. Não se trata daqueles seres míticos, estereotipados, que ganham forma nas páginas da literatura ou nas telas do cinema. Falo da raiva, da mágoa, da inveja, do medo e da insegurança, que todos nós, inevitavelmente, acalentamos em determinados momentos de nossas vidas. Cuidar para que esses monstros criados por nós mesmos desapareçam é necessidade e dever de quem segue em frente com o propósito de evoluir. O nosso crescimento depende de lutar o bom combate e impedir que esses “inimigos” saiam vitoriosos. Expulsá-los no tempo certo pode ser a diferença entre ser feliz e cair no abismo da autopiedade, atraindo experiências cada vez mais negativas.

Colocar para fora o que transborda, às vezes é tão necessário quanto respirar. Talvez por isso tanta gente não resista aos palavrões e chega às agressões. Mas escrever sobre algo que incomoda pode ser uma atitude positiva e eficiente para encontrar soluções. Se o objetivo é manter a calma e alcançar a serenidade, não fica difícil atingir um grau de consciência que conduza à sabedoria. O tempo que se leva escrevendo sobre um peso que cai na alma é suficiente para esgotar a pressão que se impõe e aliviar os ombros. Mas há que se reconhecer atitudes que nos puxam para baixo. São o vizinho implicante, o motorista estressado e o familiar egoísta que soltam seus demônios, sem perceber que estão em um perigoso jogo de dominós.

Quantos de nós não se contamina com a má ação do outro, seja julgando-o ou reagindo na mesma moeda, e assim, perpetuando o mau humor, a implicância, o desamor?  Quantos de nós não adoecemos em função do mal que deixamos que nos façam? Se estivermos cientes que nossos pensamentos e ações são capazes de despertar uma reação em cadeia ao nosso redor, cuidaremos de espalhar apenas o bem. O mal, a gente trata de expurgar de outra forma. Alcançar a plenitude tem alguns passos que não podem ser suprimidos. Se iluminar significa deixar entrar a luz e expandi-la. E para isso precisamos transformar nossos demônios em anjos, lembrando que, no início, eram os mesmos seres. Afinal, a palavra grega da qual se originam, Daimon, significa… Deus.

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O conceito de que nosso planeta nada mais é do que uma grande aldeia é tão natural hoje em dia, que não lembramos que essa realidade foi profetizada por um mago da comunicação meio século atrás. Só mesmo um visionário como o sociólogo canadense Marshall McLuhan para prever um avanço tão substancial nas relações globais…

Sem celulares e sem Internet, ele conseguiu entender, nos anos 60, que uma espantosa revolução estava próxima. Mas isso, é bem verdade, não sem um ar de desconfiança dos seus céticos estudiosos, ainda despreparados para a compreensão sobre as transformações sociais, políticas e econômicas que estavam por vir.

Justiça seja feita à genialidade de McLuhan. Afinal, hoje vivemos em um mundo interligado, em que basta um click para que a mágica das novas tecnologias esteja ao nosso dispor, estreitando distâncias, aproximando as mais remotas regiões, promovendo a informação e o conhecimento, unindo pessoas.

Essa teia surpreendente, que se formou aos poucos, ao longo de muitas décadas, e hoje é tão evidente, tem uma razão maior e emergencial, que vejo como sendo a formação de uma consciência planetária. O pensamento, a palavra, as ações há muito já não estão isolados, pairando eficientes por sobre todas as coisas.

Estamos todos interligados, é fato. Mas torna-se fundamental não se isolar como reação a essa teia que nos captura, muitas vezes de forma incondicional. Mais que nunca, a solidão, a impessoalidade e o egoísmo são um paradoxo da sociedade, criado pela informalidade e pela inconsistência das novas relações.

Cabe a cada um se sobrepor aos meandros dessas maravilhosas tecnologias, buscando não abrir mão do contato pessoal, da força de um abraço, do sábio conhecimento que advém do olho no olho, das alegrias e dores de uma viagem real. Tudo o que tocamos tem uma história, que se modifica com nossa presença…

Nossa bela aldeia precisa de nós. A essência das relações é eminentemente pessoal e não prescinde de solidariedade. Mais que nunca, o poder de transformação está ao nosso dispor para promover o desenvolvimento sustentável do planeta e a harmonia entre os homens, lutas que precisam se transformar no ideal comum de todos os povos. Com urgência!

(Fotos Fernando Moura – Representações da paz no planeta – Beijing -2008)

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