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Archive for the ‘Sutilezas’ Category

Essencial


Hoje veio uma certeza para se juntar ao monte de incômodas interrogações que se alojam na mente sem convite e sem licença: sou mesmo uma alquimista maluca que insiste sempre em desafiar as leis da natureza. Estou entre a bruxa e a fada, acreditando que, em algum ponto, água e óleo serão um mesmo elemento, sem pensar que aí perderiam o que têm de melhor, a sua originalidade. Há casos em que uma mistura forçada como essa acaba criando uma substância dúbia, incerta, estranha, que a nada prestaria longe de sua essência primeira. 

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Moon days


*Internet illustration of sun and moon in a yin yang symbol-night versus day opposition

*Internet illustration of sun and moon in a yin yang symbol-night versus day opposition

Ah, as segundas-feiras… essas moon days, mondays, dias de noites com lua mesmo depois do amanhecer… Já pensaram que a cultura germânica, lá nos  primórdios que geraram a língua inglesa, pode ter tido esse belo insight por entender que depois de seus sun days, sundays, a noite iria se impor até pela vaidade de obscurecer o sol do descanso, da alegria, dos cultos e das celebrações do dia anterior?
Afinal, é hoje que, de fato, começamos a nova semana, dando início ao que já estava em andamento… Vida que segue…  Sol que vai, lua que vem num ritmo inalterável, mesmo que os olhos não o alcancem. Temos que lembrar das muitas nuvens caprichosas que querem seu lugar em cena e se alojam, às vezes cinzentas, carregadas de água e energia, outras vezes trazendo desenhos fofos e macios a incitar a imaginação…

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Poeira ao vento


Foto abrigada em luf3.blogspot.com

Foto abrigada em luf3.blogspot.com

 Perder alguém é sempre uma dor sem medida, ímpar em suas implicações, sangue no vazio que se abre na alma de quem fica. Quando a perda vem de uma escolha, pelo afastamento necessário após um desgaste percebido, a dor chega, sim, mas com argumentos, abrindo um embate cujo principal instrumento é a razão. Nessa luta em particular, o peso é o bem que um distanciamento pode gerar em contraponto ao mal que as constantes farpas vêm a causar. Porém, a ruptura sem escolha, que a morte impõe de forma implacável, traz o peso do inexorável, o que não tem alegação senão a de que somos efêmeros e estamos longe de ser os donos de nossos destinos.

É nessa hora, de perdas inflexíveis como a de minha sobrinha Lara e dos amigos Nelma Fróes e Robson Terra, que se aflora a poética da banda Kansas, a sugerir que tudo o que somos não passa de grãos de areia (poeira) soprados ao vento. “All we are is dust in the wind”. Perder quem amamos é tomar consciência de nossa finitude e se abrir às reflexões que fogem diante da luta nossa de cada dia, por menos extraordinária que seja.

É essa dor que deveria nos fazer melhores, mais gentis, menos orgulhosos, braços abertos para o abraço espontâneo no reconhecimento de que o outro, a seu lado ou não, é um irmão e merece um sorriso sincero, o acolhimento que talvez nos seja necessário ao dobrar a esquina, ali, do outro lado…

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Detalhe do cartaz de divulgação do filme Perfume

Todos os sentidos são fundamentais, eu sei, e não abdicaria de nenhum deles, mas o olfato anda me intrigando mais que qualquer outro, talvez por sua capacidade de retomar memórias que há muito estavam engavetadas.  Não foi à toa que um dos livros mais fantásticos que li tenha sido Perfume, do alemão Patrick Süskind, transformado em filme por  seu compatriota Tom Tykwer. A história gira em torno de um jovem sem odor corporal, que mata para conseguir um perfume que seja a quintessência da beleza e da juventude.

Saindo das páginas do livro e entrando na vida real, Pedrinho nasceu e com ele se espalha o cheiro mais gostoso deste mundo: o de bebê fresquinho, saído do banho, molengando no colo com aquele olharzinho inocente, de quem inspira cuidados e em troca sorri, primeiro com o canto da boca, depois com o brilho dos olhos e, então, finalmente, exalando o sopro divino de um risinho sonoro, miniatura de gargalhada… E tudo isso vem com seu cheirinho de nenem.

Há cinco anos, Lucas trazia esse mesmo cheirinho por onde passava. Hoje, menino sabido, da era dos Índigos ou dos Cristais, não sei bem, ainda rescende a uma deliciosa colônia infantil, que a gente sente quando o abraça à força, cafungando atrás de sua orelha antes que saia correndo, ávido por se livrar de beijos e abraços forçados. Mas seu cheiro também cresceu, ficou diferente, tem mistura de arte, da deliciosa intenção de estar sempre disposto a “aprontar”.

 A primeira vez que meu marido usou seu perfume da Paco Rabanne, pensei: se não fosse o homem que escolhi para casar “trocentos” anos atrás, seria a hora de colocá-lo para sempre em minha vida. Tá, eu sei, nada é para sempre… Mas os cheiros especiais, vamos combinar, estes são, e como! Hoje, em que o Atlântico nos separa momentaneamente, a fronha ao lado da minha denuncia sua presença… Mesmo nova e bem lavada, há algo no travesseiro que é seu, não sai de lá, é sua marca, sua essência.

 Se penso em minha mãe ou minha irmã, sinto o cheiro que vem do fogão, da comida gostosa, dos pratos do dia a dia, das receitas de Natal, e me vejo com lágrimas de amor e saudade, embora ambas morem logo ali, virando a esquina e seguindo em frente. Ainda sinto o perfume de orquídeas quando me vejo criança, em Linhares, quando meu avô me deixava escolher, entre suas preferidas, a flor perfeita para enfeitar meu bolo branco de aniversário. Uma estufa repleta de orquídeas e dendróbios tem um cheiro tão peculiar que chega a ser desconcertante, e ainda consigo senti-lo meio século depois.

 Essas são vivências que definem parte de quem me tornei. Os cheiros estão em tudo. Na chuva que molha o mato, na poeira que sobe da terra quando a moto abre seu caminho, no cachorro que deita confiante sob os pés do dono, nos filhos pequenos aninhados sob as asas da mãe, e depois, crescidos, com os cabelos ao vento, trazendo o cheiro da vida.

 Por fim, a  importância do olfato poderia se resumir na aventura que a Disney promove por meio de uma câmara escura, cujos sons sugerem com perfeição a presença da Floresta Amazônica. A chuva descendo, o vento nas folhas agitadas, o ruído de pequenos animais, o silêncio e, de repente, um grande felino rugindo. Você se sente no Amazonas. Mas, de fato, a Floresta da Chuva só vai ser conhecida por quem tiver a oportunidade de se embrenhar na mata e sentir o cheiro de todos esses sons. Não tem outro jeito! E aí a gente compreende o que levou Patrick Süskind a escrever seu Perfume.

Floresta Amazônica à altura do Rio Negro. Foto Fernando Silva 

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O que é ser feliz?


 O riso farto da criança oculta, o abraço do amigo sincero, o elogio do desconhecido que enxerga além, o olhar de ternura do velho que passa, tudo me faz feliz. E o que dizer do ato de ninar um bebê querido ou contar histórias para um menino sabido, fazer cócegas nos sobrinhos amados, presentear o outro com um olhar de adivinho? Dar a todos o melhor de mim, eis o que me faz feliz.

Brincar com as gotas que escorrem na vidraça, saltar as riscas da calçada sem se preocupar em cair, arriscar as possibilidades que o dia traz, sonhar com o amanhã me faz mais que feliz. Fazer o primeiro café do dia, escrever para soltar o peito, sentir o sol que vaza das árvores, caminhar descalça na areia da praia, pular pequenas ondas também me faz feliz…

Dançar com um parceiro improvável, se sentir necessária na jornada, andar com quem lhe cede o cajado são formas que a vida toma para me fazer feliz. Aquietar o coração com uma lembrança bonita, sentir o cheiro de bolo assando, aplaudir a façanha alheia, ouvir a música da vida, isso é ser feliz. Mas tem mais, muito mais, que me faz feliz. Saber que você se importa, e chegou até aqui, ah…. isso me faz mais que feliz.

Afinal, o que é ser feliz? É se contentar com os pequenos grandes milagres que a vida escolhe e acolhe, o presente de estar no presente. Mas isso são só detalhes. Pois é, por favor não os roube de mim, porque eu sou assim: pedacinhos de alegria, retalhos de vida tecidos em patchwork que precisam de muita sensibilidade para serem bem combinados. Colcha que a muitos aquece, costurada com panos e linhas de ternura para fazer você feliz.  

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Ai que saudade de ti


Primeiro dia do ano e nesta Juiz de Fora de céu cinzento, as nuvens insistem em derramar mais água sobre nós. Melhor olhar para cima e entender a chuva como bênção que chega para lavar a cidade e, de leva, os corações que, mesmo de longe, teimam em bater por ela. Nesse cenário gris só o que me vem à cabeça são os poucos dias do final de 2011 que passei no Rio de Janeiro e o que deles ficou: a voz de quem se valeu da poesia de Vital Brasil para abençoar uma nova união, repetindo os versos do violeiro, algo mais ou menos assim:

“Não admires se um dia um beija-flor invadir a porta da tua casa, te der um beijo e partir. Fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo, faz tempo que não te vejo, ai que saudade de ti. Se um dia lembrar, escreva uma carta pra mim, bota logo no correio, com frases dizendo assim: faz tempo que não te vejo, quero matar meu desejo, te mando um monte de beijo, ai que saudade de ti”… É esta delicadeza que me encanta e que desejo poder levar a quem, como eu, se esbalda nas águas da sensibilidade…

*a foto acima está abrigada em http://sucesso.powerminas.com/historias-para-motivar-o-beija-flor-idealista/

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Eclipses


Exemplar da flora típica do Parque Estadual de Ibitipoca – MG (Foto Fernando Silva – 2011)

Não sou do Sol, não sou da Lua. Não sou do dia nem da noite. Algumas vezes penso que sou um eclipse, o forçoso ponto de encontro entre reis e mendigos, sábios e ignorantes, tudo e nada. O bem e o mal me sondam e não me assusto. Sou o intervalo, a pausa no estabelecido. Não me rendo ao (pré)conceito de todas as coisas e as investigo antes de formar opinião. Ainda assim, me equivoco. Aprendo com os erros. Minha gangorra balança para o abismo. Não tenho medo, tampouco coragem, só bravura. Já caí, ralei, rolei e aqui estou, de pé. Sigo aos tropeços. Quem me vê inteira sobre o salto não sabe a dor da caminhada. Mas não me rendo, apenas sigo. Persisto.

Como Sísifo, ainda carrego uma pedra morro acima, mas me recuso a rolar a mesma, dia após dia. Troco de pedra e penso no que posso construir com ela. Já tenho uma montanha delas e vejo, no espaço entre uma e outra, surgir uma plantinha rara, beldade ímpar em sua resistência. Quem acha que seu nascimento veio do nada, não a viu em batalha contra a aridez. A lacuna entre as coisas tem maravilhas ocultas ao olhar viciado pelo convencional. Nas montanhas de minha alma, retiro as ervas daninhas para que não atrapalhem as orquídeas, mas morro de pena daquelas pobrezinhas, porque só o que vejo é a luta pela sobrevivência e, de repente, um mudo pedido de perdão.

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