Feeds:
Posts
Comments

Posts Tagged ‘paco rabanne’


Detalhe do cartaz de divulgação do filme Perfume

Todos os sentidos são fundamentais, eu sei, e não abdicaria de nenhum deles, mas o olfato anda me intrigando mais que qualquer outro, talvez por sua capacidade de retomar memórias que há muito estavam engavetadas.  Não foi à toa que um dos livros mais fantásticos que li tenha sido Perfume, do alemão Patrick Süskind, transformado em filme por  seu compatriota Tom Tykwer. A história gira em torno de um jovem sem odor corporal, que mata para conseguir um perfume que seja a quintessência da beleza e da juventude.

Saindo das páginas do livro e entrando na vida real, Pedrinho nasceu e com ele se espalha o cheiro mais gostoso deste mundo: o de bebê fresquinho, saído do banho, molengando no colo com aquele olharzinho inocente, de quem inspira cuidados e em troca sorri, primeiro com o canto da boca, depois com o brilho dos olhos e, então, finalmente, exalando o sopro divino de um risinho sonoro, miniatura de gargalhada… E tudo isso vem com seu cheirinho de nenem.

Há cinco anos, Lucas trazia esse mesmo cheirinho por onde passava. Hoje, menino sabido, da era dos Índigos ou dos Cristais, não sei bem, ainda rescende a uma deliciosa colônia infantil, que a gente sente quando o abraça à força, cafungando atrás de sua orelha antes que saia correndo, ávido por se livrar de beijos e abraços forçados. Mas seu cheiro também cresceu, ficou diferente, tem mistura de arte, da deliciosa intenção de estar sempre disposto a “aprontar”.

 A primeira vez que meu marido usou seu perfume da Paco Rabanne, pensei: se não fosse o homem que escolhi para casar “trocentos” anos atrás, seria a hora de colocá-lo para sempre em minha vida. Tá, eu sei, nada é para sempre… Mas os cheiros especiais, vamos combinar, estes são, e como! Hoje, em que o Atlântico nos separa momentaneamente, a fronha ao lado da minha denuncia sua presença… Mesmo nova e bem lavada, há algo no travesseiro que é seu, não sai de lá, é sua marca, sua essência.

 Se penso em minha mãe ou minha irmã, sinto o cheiro que vem do fogão, da comida gostosa, dos pratos do dia a dia, das receitas de Natal, e me vejo com lágrimas de amor e saudade, embora ambas morem logo ali, virando a esquina e seguindo em frente. Ainda sinto o perfume de orquídeas quando me vejo criança, em Linhares, quando meu avô me deixava escolher, entre suas preferidas, a flor perfeita para enfeitar meu bolo branco de aniversário. Uma estufa repleta de orquídeas e dendróbios tem um cheiro tão peculiar que chega a ser desconcertante, e ainda consigo senti-lo meio século depois.

 Essas são vivências que definem parte de quem me tornei. Os cheiros estão em tudo. Na chuva que molha o mato, na poeira que sobe da terra quando a moto abre seu caminho, no cachorro que deita confiante sob os pés do dono, nos filhos pequenos aninhados sob as asas da mãe, e depois, crescidos, com os cabelos ao vento, trazendo o cheiro da vida.

 Por fim, a  importância do olfato poderia se resumir na aventura que a Disney promove por meio de uma câmara escura, cujos sons sugerem com perfeição a presença da Floresta Amazônica. A chuva descendo, o vento nas folhas agitadas, o ruído de pequenos animais, o silêncio e, de repente, um grande felino rugindo. Você se sente no Amazonas. Mas, de fato, a Floresta da Chuva só vai ser conhecida por quem tiver a oportunidade de se embrenhar na mata e sentir o cheiro de todos esses sons. Não tem outro jeito! E aí a gente compreende o que levou Patrick Süskind a escrever seu Perfume.

Floresta Amazônica à altura do Rio Negro. Foto Fernando Silva 

Read Full Post »