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Posts Tagged ‘patchwork’


*Imagem abrigada em suavedevaneio.blogspot.com referente a obra de Neneca Barbosa

Querido amigo, se bem me lembro, tempos atrás você me perguntou sobre escolas, indagando se faria diferença, na educação de uma criança, um colégio regido por normas religiosas. Na verdade, sempre agi muito intuitivamente, sem me preocupar com o que certo estabelecimento representava historicamente ou em termos de perspectiva, para mim ou para meus queridos filhos e sobrinhos, talvez porque eu tenha vindo de uma formação “patchwork”, pulando entre instituições públicas e particulares ao sabor do que se apresentava como oportunidade  em determinado momento…

Assim, para tecer minha colcha de retalhos educacional, precisei começar de alguma forma e a primeira coisa que me reservaram foi uma vaga, aos 5 anos, na escolinha informal do bairro onde nasci, Linhares, na Zona Leste de Juiz de Fora, onde estava instalada não apenas a Penitenciária Estadual, destinada a presos políticos à época da ditadura militar, mas também a antiga Febem, que acolhia menores infratores. Ou seja, nenhuma família, em sã consciência, deixaria a filha caçula aos cuidados pouco ortodoxos de uma professorinha provinciana, enquanto os outros filhos frequentavam o Instituto Granbery, por onde passaram personalidades como o presidente  da República, Itamar Franco. Fez diferença para mim? Nenhuma!

Pois bem, com base na minha experiência tão plural, acabei entrando aos 6 anos para a Escola Municipal Dilermando Costa Cruz, sendo encaminhada por minha professora de lá, Dona Mariana, para a Escola Normal (hoje Instituto de Educação). Depois, aos 9 anos, fiz um concurso que incluía teste de QI na seleção, permitindo que entrasse para o Colégio de Aplicação João XXIII da Faculdade de Filosofia e Letras da UFJF, que foi, definitivamente, um tempo que mereceu sofridas reflexões no diário de uma pré-adolescente.

Quando saí de lá, tentei um grito de liberdade pessoal e segui para o Machado Sobrinho, excelente instituição, para o Colégio São José (atual Vianna Júnior), até chegar ao Jesuítas, que foi meu paraíso terrestre, e, finalmente, passar no vestibular da UFJF, onde fiquei o tempo suficiente para garantir minha independência.  O curso de Comunicação Social, fiz em tempo recorde, acumulando estágio de cinco horas diárias como jornalista. Sobrevivi, certo? E nunca foram feitas concessões a meu favor. Tive que me virar. E os lugares onde estive não definiram a pessoa humana ou a profissional que me tornei. 

Com isso, acho que a essência é sempre o que prevalece, não importa se você está em Harvard, na Sorbonne, em Oxford ou na UFJF. Somos o que somos e a “culpa” não é da escola, dos pais, do ambiente, da religião. Mesmo a história mais triste pode ser reveladora de um grande ser capaz de transcender o sistema e surpreender. Por pensar assim, não me importei de colocar meus filhos em uma escola então desconhecida, o Cantinho Feliz, que lhe rendeu uma experiência no mínimo generosa. De lá, foram para o Degraus de Ensino, que “engatinhava”,  e seguiram para a Academia de Comércio, que amaram mesmo sendo uma instituição católica, de orientação verbita. Ainda que ateia na ocasião, vê-los em aulas de religião jamais feriu meus princípios. Sabia que eram sensíveis e inteligentes o bastante para separar o joio do trigo. Confiei na semeadura e colhi exatamente o que esperava. 

No final das contas, querido amigo, seja lá qual a colcha que fazemos, ela é só nossa e reflete a habilidade que temos em costurar os retalhos que nos ofertam e fiar o nosso próprio tecido quando a oportunidade aparece. Amo essa manta que fiz, porque ela é bela, fofinha e útil, me aquecendo quando algo ou alguém sopra ventos gelados sobre mim.  De quando em quando, ouço um sussurro aqui, outro ali, sobre como meu cobertor poderia ter sido mais bem preparado. Vejo os desgastes inevitáveis na peça geral e me ponho a cerzir os pontos fracos. Remendos?  Nada mais lindo e autêntico numa colcha de retalhos. Afinal, cada recorte é um pedaço de mim, memórias que retenho no coração.


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