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Posts Tagged ‘porco-espinho’


Com um nome nada usual , Se é um porco-espinho. Gentil, carinhoso e sem a menor noção de seu poder de embate, Se adora um aconchego. Porém, quase ninguém se aproxima dele, tamanho o medo de acabar espetado.  Vamos que, sem querer, Se fique empolgado e resolva abraçar alguém… Vamos que, sem pensar, um colega deixe de lado o receio dos estranhos “pelos” que o envolvem e resolva se achegar… Tapinha nas costas, brincadeira inocente e tão frequente entre companheiros, nem pensar. Se até que tem sido esforçado, tentando manter uma amizade aqui outra ali. Mas quer saber a verdade? Parece que desistiu. Foram tantos os transtornos e incidentes, que os vizinhos e os poucos amigos que fez em sua infância acabaram colocando um fim na relação. Com isso, o coitadinho passou a pensar que, neste mundo de amizades sem futuro, só lhe restava solidão. Entretanto, uma pergunta nunca saía de seu coração: “Mas, e se…?” Questão não dita, resposta não formulada.

Por tudo isso, Se abafou sua alma fraterna e buscou exílio nas matas que teimam em sobreviver. Durante o dia, o jovem porco-espinho descansa no topo das árvores e faz de troncos ocos esconderijos que o mantêm distante da possibilidade de ferir alguém. Se, agora adolescente, é um especialista em solitude, mas não quer viver assim para sempre. Todos os dias, encontra um velho pensamento que insiste em repassar por sua cabecinha: “Mas, e se…”, para, em seguida, engolir o sentimento inquietante, voltando a ficar concentrado na árdua tarefa de acompanhar o movimento das noites na floresta. A busca de sementes, frutos e cascas para sua nutrição não pode esperar: começa no crepúsculo e expira na aurora.  Se é um sobrevivente.  Seu único temor é encontrar um bicho que lhe devolva a esperança de uma amizade sincera e acabe massacrando-o com uma chuva de espinhos involuntária. E ele pensa outra vez: “Mas, e se…” Não, isso nem pensar!

Perto de virar adulto, Se já enfrenta seu destino com resignação. Foram muitas estações se acostumando consigo mesmo.  Ouvira uma vez, já nem se lembra quando, que jaguatiricas e outros grandes felinos poderiam resgatá-lo da solidão. Eram animais fortes, que nada temiam. Com essa ponta de esperança, Se armou sua alma de coragem e adicionou a mensagem “Procurar feras” em sua peregrinação noturna. Até que encarasse os novos e destemidos habitantes das matas, começou a treinar o lançamento de farpas a distância. Sua vocação guerreira, porém, era nula e seus espinhos pareciam ter vontade própria, projetada em ocasiões imprevisíveis. Se estava quase desistindo quando ouviu o rugido da  pintada. Arrepiado só com o som feroz, lá se foi todo um arsenal de farpas disparadas aleatoriamente. E foi então que pensou: “Mas, e se… for melhor assim?” Pela primeira vez, Se deu voz à grande interrogação de sua vida, convencido de que despido de suas lanças naturais teria, enfim, uma abordagem amigável.

Se de um lado, jaguatirica de outro, teve início o que tinha tudo para ser uma amizade ideal. Forças equivalentes se emparelhavam sem o véu de um confronto. Se, radiante, aproximou-se sem reservas, mas o que viu foi o desafio brilhando nos olhos de um oponente. Farpas deixadas ao léu, o porco-espinho lançou ao felino a súplica da sonhada aliança. Em troca, porém, reconheceu os movimentos de um ataque iminente. Um arrepio correu seu corpo indefeso e Se viu a morte. Não apenas a sua, mas a de seu grande sonho de ter companhia. Foi quando, da vegetação que envolvia a clareira dividida por vítima e algoz, surgiu o inusitado. Sem acreditar na cópia de si à sua frente, Se viu espinhos voando direto para o predador. Atingida no focinho, a onça ganhava barba e bigode de vibrissas, as armas do porco-espinho. Longe da pintada, que fugiu veloz noite adentro, dois amigos estavam, enfim, prontos a se conhecer. O reflexo da lua na clareira inundava mais além. Dois corações batiam sem medo de se ferir. E sem que surgisse o pensamento: “Mas, e se…” Nunca mais! 

*Fotos Internet

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